Sistemas de propriedade do conhecimento

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Á partida, aquilo a que chamamos “budismo” hoje em dia não é uma religião. Algumas pessoas denominam-no como uma “ciência do espirito”, ou como uma “forma avançada de psicologia”. De facto, do ponto de vista etimológico, “religião” significa voltar a ligar-se a deus e a doutrina budista descarta a existência de um ente divino criador do universo. Mas do ponto de vista da prática sócio-institucional, o budismo tornou-se, de facto, numa religião. Isto porque se transformou num sistema completo, uma “teoria unificada” que revela todos os aspectos do nosso microcosmos internos, bem como do macrocosmos externo. Em suma, revelando a “verdade”, à semelhança das suas congéneres.

Mas não se deve a buda esta abordagem, dado que este se “limitava” a responder às questões que lhe colocavam. Na sua essência, buda nunca foi sequer budista, dado que, após ter confrontado a realidade por si próprio, simplesmente partilhou aquilo que aprendera, de acordo com o ouvinte e a questão, sem proceder a sistematizações. Estas apenas foram realizadas após a sua morte, a partir dos registos daquilo que transmitira. Isto levanta uma questão interessante: se os seus ensinamentos eram sobretudo pessoais, será legitimo torná-los universais? Dado que cada pessoa possui uma percepção única, cada uma pode precisar de soluções diferentes, ou mesmo opostas para resolver um problema semelhante. Será uma resposta doutrinária suficiente para a multiplicidade e complexidade de todos os seres?

Por outro lado, tendo buda optado por seguir o seu próprio caminho, não aceitando os sistemas filosóficos e religiosos vigentes, será coerente criar todo um sistema de crença e filosofia em seu nome, que se substitui a uma pura busca pessoal?

O próprio conceito de sistema religioso encerra em si a adesão a um sistema de crenças e valores divinamente revelado. De acordo com os ensinamentos, iluminação implica omnisciência e o “dharma” budista é o ensinamento dos iluminados.

Aqueles que se tornam budistas tomam dez votos entre os quais se encontram: não seguir mestres de outras correntes de pensamento e não se deixar influenciar por pessoas que adoptem outras visões. Trata-se de uma dedicação exclusiva. Assim, não é de estranhar que facilmente surjam partidarismos. Trata-se de uma aposta muito arriscada dizer que seguiremos só um caminho quando provavelmente nos encontramos apenas no inicio do nosso percurso. E se esse caminho nos levar a outro diferente? Não seria a primeira vez.

Outro dos votos que o novo budista assume é o de encorajar os outros a tornarem-se budistas. Apesar de não existir missionarismo de forma explicita, encontra-se aqui exposta a ideia de salvacionismo. Neste contexto, torna-se difícil olhar de forma coerente para outras religiões, ou correntes de pensamento como iguais. A chamada tolerância religiosa surge na sua acepção mais limitada, de cima para baixo.

Assim se forma criando sistemas de propriedade do conhecimento, que apenas é revelado exigindo como contrapartida uma aderência total a uma carta de princípios e crenças. Aqui, o caminho para a verdade é uma via única, exclusiva e sem partilha, limitando a pesquisa pessoal e o auto-conhecimento a um sistema especifico. Exactamente aquilo que buda não aceitou, para poder encontrar-se.