Se pudéssemos
concentrar todo o budismo numa única frase , poderia bem ser “o caminho
para a felicidade depende apenas de nós próprios”. Esta proposta que nos faz olhar para dentro, tentando descobrir uma
riqueza quase insuspeita, tem motivado um crescente interesse na nossa sociedade. Afinal, são muitos aqueles que ambicionam
saber compreender e trabalhar com as suas emoções, lidar com o stress, ou integrar a
sua vida emocional e espiritual num sistema de “diagnóstico e terapêutica”.
Os próprios
centros ou comunidades budistas divulgam amiúde programas de actividades, onde a gestão da raiva e do desejo, o despertar
da compaixão, ou o cultivo da sabedoria são cabeças de cartaz. Estes destinam-se
sobretudo a um publico heterogéneo, compreensivelmente ávido deste tipo de abordagem, dada a pressão do corre-corre diário,
onde não existe tempo nem energia para abordar estes aspectos fulcrais da nossa vida.
De facto,
a ultima coisa que se espera encontrar quando se franqueia os portões do templo à procura de alguma forma de libertação é
uma dose acrescida de problemas ou um sistema de dependência emocional. Mas é isso que muitas vezes acontece.
AS MÁS NOTICIAS PRIMEIRO
Antes
de mais nada, é necessário esclarecer que não se pretende aqui pôr em causa a legitimidade do cânone budista, mas sim o uso
que é feito da chamada doutrina ou “dharma”, para beneficio de instituições ou indivíduos.
A informação
que qualquer neófito recebe, caso pretenda ficar para além de um simples workshop ou retiro de fim-de-semana é a chamada “primeira
nobre verdade”: tudo é sofrimento. Após essa chocante revelação, a causa desta condição é explicada pela
“segunda nobre verdade”: todos nos encontramos envolvidos num ciclo incontável de renascimentos (guiados pelos
“três venenos mentais”: ignorância, raiva e apego). A isto se chama “samsara”.
São estas
as más noticias, mas existem as boas : buda ensinou um caminho espiritual completo para transcender samsara e assim atingir
a chamada felicidade ultima.
Até aqui
parece não existir nada de pernicioso; trata-se da revelação de uma realidade nua e crua, do seu porquê e dos meios para a
transcender. Embora seja questionável, como convém a qualquer verdade.
Mas de
um ponto de vista mais aproximado, como o de muitos aqueles que se envolveram nesta experiência, o que sucede pode ser algo
bem diferente.
AS SEMENTES DO PECADO
Façamos
então um balanço do ponto de vista do nosso potencial praticante: entrou no mundo da espiritualidade budista atraído pela
possibilidade de auto-conhecimento, ou simplesmente curioso. De imediato, é-lhe colocada nos ombros uma espécie de condenação
intemporal: viveu incontáveis vidas, movido pela ignorância, nos denominados seis reinos de samsara: o dos deuses. semideuses,
humanos (o mais auspicioso), animais, espíritos famintos e infernos. Descritos, por vezes de forma bastante viva e pungente
em qualquer “introdução ao budismo”.
Mesmo
a tão celebrada faceta da compaixão, tão enfatizada na doutrina budista, é introduzida pelo lado negativo: o praticante deve
contemplar aturadamente o sofrimento dos outros, de forma a gerar “amor” por eles. Uma das consequências que pode
advir desta abordagem é o facto de, ao invés de se fomentar a empatia, se estimular o sentimento de que se deve ajudar os
outros para aplacar o sentimento de culpa.
A pergunta
que aqui se coloca é, porquê esta sobrecarga de informação negativa para começo de conversa? A resposta de quem sentiu este
processo na primeira pessoa é a de que este é a forma ideal de inculcar de forma profunda no praticante a noção de que prevaricou,
por outras palavras, de que pecou, embora este termo não exista por si só no vocabulário utilizado neste meio. E não nos podemos
esquecer de que a noção de pecado se encontra ainda fortemente enraizada no nosso inconsciente colectivo, ainda aliada ao
conceito do prazer.
Em contraponto,
os lamas, ou guias espirituais são apresentados como aqueles que estão para além da ignorância, muitas vezes designados como
“o precioso”, ou mesmo “o infalível”, ou o “omnisciente”. Tendo feito um diagnóstico bastante
fatalista da situação dos alunos, os lamas apressam-se a lançar a tábua de salvação: eles possuem os ensinamentos que podem
levar o aluno a transcender samsara. Ou, por outras palavras, salvá-lo.
A GÉNESE DE UMA RELAÇÃO DE DEPENDÊNCIA
Estamos
aqui perante a criação de uma clássica relação de dependência. Neste tipo de relação podemos encontrar duas partes: uma dominante
e outra mais débil (ou dominada). A primeira tornou-se mais forte convencendo a segunda que é fraca e, assim sendo, não tem
o potencial de ser auto-suficiente. De facto, a parte dominada deixa de se sentir capaz de sair da relação para procurar alternativas,
já que se encontra condicionada a temer o exterior e a não confiar na própria individualidade.
Assim,
no mundo budista os alunos são vistos como alguém que, embora com um grande potencial, se encontra limitado pelo sua ignorância
e por uma mente dualista, ao invés do mestre, cuja mente não-dual tudo abarca.
O pior
desta relação é o facto de a mesma já ter dado frutos bastante amargos. No que respeita à história desta “religião”
no ocidente, são já amplamente conhecidos uma série de casos de abusos de poder e até mesmo de abusos sexuais, entre muitas
outras situações que nos habituamos a associar a cultos ou seitas.
DO PRAZER À DOR
O mais
celebrado exemplo de vida no mundo do budismo de tradição tibetana é, sem duvida, o de milarepa, o iogui-eremita. Ela envolve
um passado de sofrimento atribulado, uma passagem pelo lado mais obscuro, praticando magia negra e, finalmente, a redenção,
pela mão do seu guru.
Para
que tal redenção fosse possível, o seu mestre submeteu-o às mais extenuantes e dolorosas provações físicas e psicológicas
que o levaram à beira do suicídio. Apenas lhe dando acesso ao conhecimento posteriormente. Ao que parece, milarepa necessitava
dessas provações para se tornar receptivo à mensagem e prática da libertação.
Esta biografia ilustra bem o principio que temos vindo a analisar: a condição “pecadora”
e dominada pela culpa leva a que o neófito aceite qualquer metodologia que lhe seja imposta, dado que se sente encurralado
na sua condição, tendo apenas uma porta de saída: o seu lama. Não admira, portanto, que estejamos da presença de uma história
de vida extremamente popular: a liberdade individual é sacrificada na crença de que os fins justificam os meios