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Sendo um caminho bastante extenso, repleto de informação e diferentes metodologias, a via budista exige a presença da figura do professor – o lama ou guru – que acompanha pessoalmente o aluno. Esse acompanhamento personalizado permite fornecer ao aluno os métodos indicados para trabalhar com a sua própria situação. Esta característica tem sido vastamente celebrada  ao longo da história, tendo atraído muitos interessados e servido para tornar imprescindível a figura do “mestre”.

Todavia, desde a sua diáspora para o ocidente, os mais variados lamas têm prodigalizado um frenesim para a criação de centros, templos, centros de retiro e outras estruturas similares, angariando centenas ou mesmo milhares de alunos. O processo é simples: basta um convite, uma palestra num local novo, e um ou mais entusiastas dispostos a ceder uma casa ou a alugar um espaço. Todo o processo se reveste de um certo idealismo romântico. Mas a consequência deste “modus operandi” é o facto de o guru  passar a esmagadora maioria do tempo a viajar de centro em centro, de país em país, não podendo acompanhar a maioria dos alunos pessoalmente. Muitas vezes o contacto pessoal do aluno com o mestre, resume-se a uma pequena entrevista, diligentemente cronometrada, uma ou duas vezes por ano, aquando da sua visita. Há inclusivamente casos em que os alunos nunca contactaram pessoalmente com o seu mestre. Estão apenas em contacto com os professores locais, designados pelos mestres ou  pelas organizações.

Por outro lado, cria-se um efeito colateral perverso. Podemos chamar-lhe a “estratificação financeira”. Trata-se do seguinte: normalmente os alunos só têm contacto com o seu mestre, cada vez que este visita o seu centro, no âmbito de um programa de actividades pago (retiro, curso, workshop, iniciação...), cuja calendarização depende da disponibilidade do lama. O que significa que apenas quem tem dinheiro (para pagar as actividades e fazer oferendas) e disponibilidade pode ter acesso aos ensinamentos . Por exemplo, como é que a maioria dos alunos que trabalham podem tirar uma semana fora do seu período de férias para frequentar um retiro?

 

HOMENS E MITOS

 

Muito se tem falado sobre a humildade e simplicidade dos “mestres budistas”, mas o facto é que esta imagem de simplicidade e humanidade por vezes é apenas isso: uma imagem. Muitos lamas aceitam que os alunos lhes prestem verdadeiros cultos de personalidade, envolvendo uma elaborada etiqueta, requintados presentes e acomodações e obediência inquestionável. O que significa não negar nada. De facto, desde o tempo de buda, que era um mero pedinte sem posses, muito se passou.

De um ponto de vista relacional, a maior parte dos lamas é vista como uma espécie de “deuses vivos” ou mitos. Isto significa que são raros aqueles que estão dispostos a lidar com eles, olhos nos olhos. Esta “relação” distante que é criada, permite que o guru seja uma espécie de tela em branco, onde o aluno pode projectar todas as qualidades, bem como a solução para as suas carências, pois, de facto, não conhece minimamente quem é a pessoa que está à sua frente sentada num trono. Também elimina a percentagem de vozes criticas ou discordantes. Um simples sorriso do mestre espiritual pode ser interpretado como uma corrente celestial de bênçãos.

 

A LEI DO SILÊNCIO

 

O facto de o publico ocidental  ter aberto os seus corações e carteiras  muitas vezes de forma incondicional, levou a que tivessem lugar os mais diversos tipos de abusos. Muitos “mestres” não hesitaram em aproveitar-se de tanta disponibilidade e muitos destes casos têm vindo a publico e mesmo chegado a tribunal. O próprio dalai lama admitiu a existência destes acontecimentos, mas o que foi feito na prática para acabar com eles? A resposta é nada. Os lamas têm erguido um muro de silêncio sobre estes acontecimentos e continuado em frente. Apesar da estrutura clerical budista se encontrar fortemente hierarquizada, nenhum responsável pediu satisfações aos prevaricadores. Antes pelo contrário, deixaram somente aos alunos a responsabilidade de denunciar os abusadores, sabendo que muitas vezes estas denuncias são alvo de descrença e ostracismo por parte da comunidade de praticantes. Como resultado, não existem indícios que alguma estrutura possa ser alterada, de modo a que a integridade dos alunos possa ser salvaguardada.

 

AS ENTRELINHAS

 

Antes pelo contrário, a política generalizada continua a ser a aumentar o numero de budistas nas fileiras. É evidente a ligeireza com que se concedem os chamados “votos de refugio” aos entusiastas. É frequente estes tornarem-se budistas quando possuem apenas um conhecimento bastante limitado de toda a sua vastidão doutrinária. São atraídos, isso, sim por algumas ideias de base. Não é raro que as próprias iniciações mais avançadas sejam dadas aos praticantes sem o conhecimento de que, após estas, vão ter de cumprir um vasto conjunto de votos que envolvem a modificação de hábitos pessoais, sociais e até mesmo sexuais (“não desperdiçar sémen”, por exemplo...), e a intensificação da  a prática e da devoção. Para a ortodoxia vigente , a quebra de tais votos, ou pior, o seu abandono, acarreta para o praticante trágicas consequências karmicas, como indicam os tantras.

Muitas vezes as portas dos centros são franqueadas por pessoas fragilizadas que, em alturas criticas da sua vida, procuram alternativas e se encontram altamente vulneráveis, ou por pessoas muito jovens com pouca experiência de vida. Os gurus ou professores não têm pejo em torná-las budistas, ao invés de as encorajaram a conhecer-se primeiro a elas próprias e lidar com os seus problemas, sem assumir compromissos de que mais tarde se poderão arrepender. Basta ver a frequência com que muitos entusiastas tomam a ordenação monástica e se “desordenam” passado algum tempo.

INFORMAÇÃO ADICIONAL

Comunicado do dalai lama, sobre os problemas criados por lamas:

http://www.bodisatva.org/dalai/d.php?subaction=showfull&id=1091414387&archive=&start_from=&ucat=23&

                               (onde se lê "carta aberta à comunidade budista")