Durante
anos, June Campbell foi “consorte” de um monge budista sénior. Chegou a ser ameaçada de morte, caso quebrasse
o seu voto de sigilo. Mas, ao que parece, a iluminação tem destas coisas.
Pés de
barro? Não, tratava-se de outra parte da anatomia – esta bastante carnal – que causou o problema. Mas, ao que
parece, o sexo tântrico também não é uma actividade muito ortodoxa. Nem sequer o sexo mais comum, quando alguém tenciona tornar-se monja celibatária.
June
Campbell começou a sua palestra dizendo que era a segunda vez que tinha sido convidada a falar
para um grupo budista no seu país, desde que o seu livro “Viajante no Espaço” fora lançado, três anos antes.
O tópico desta palestra era “Dissensão nas comunidades budistas”, e não é possível encontrar uma forma de dissidência
mais marcante do que a autora protagonizara: não apenas revelara que durante anos tinha sido a consorte sexual secreta de
um dos maiores homens santos do budismo tibetano (o tulku, ou lama reincarnado Kalu rinpoche), como insistiu igualmente que
o abuso de poder que marcou a relação, expunha claramente uma falha na essência do próprio budismo tibetano.
Esta
posição foi vista como heresia. Para o publico em geral, Kalu era um dos mais
reverenciados lamas-ioguis no exílio. Como abade do seu mosteiro, tomara votos de celibato e era altamente respeitado por
ter passado 14 anos em retiro solitário. Entre os seus alunos encontravam-se os mais reputados lamas do tibete. Nas palavras
da senhora Campbell: “o seu estatuto era incontestado na comunidade tibetana e comprovado pelo dalai lama”.
Através
do seu livro bastante académico que tem como subtítulo: “em busca da identidade feminina no budismo tibetano”,
June Campbell conseguiu provocar impacto no restrito núcleo duro da estrutura budista, gerando o que a autora descreveu como
“um afluxo primitivo de raiva e de fúria”. “Fui insultada de mentirosa e de demónio”, contou ela durante
a palestra publica no instituto não-sectário para o estudo do budismo, em Sharpam, Devon. “Naquele mundo, ele era uma
figura sagrada. Era como dizer que a madre Teresa estava envolvida no mundo da pornografia”.
Mas não
foi o medo de represálias que a levou a esperar 18 anos até publicar as suas revelações
no seu livro “Viajante no Espaço”, cujo titulo é a tradução de “dakini”, um termo algo poético
que designa a mulher usada pelo lama para a actividade sexual. Ela precisou desse tempo para ultrapassar o trauma dessa experiência.
“Passei 11 anos sem falar sobre o assunto e, finalmente, quando decidi escrever, levei sete anos a pesquisar. Eu queria
juntar a minha experiência pessoal a um conhecimento mais teórico sobre o papel da mulher na sociedade tibetana, para perceber
o que se passara comigo”.
E o que
aconteceu foi que, tendo-se tornado budista na Escócia (o seu país de origem) nos hippies anos 60, viajou até à Índia, onde
se tornou monja. Passou 10 anos num mosteiro da tradição tibetana e penetrou mais profundamente que outro ocidental na hierarquia
esotérica da congregação. Finalmente, tornou-se na tradutora pessoal do guru durante os anos 70, quando este viajou pela Europa
e América. Foi após isto que ele “lhe pediu para ser a sua consorte secreta e tomar parte em actividades secretas com
ele”.
Apenas
uma outra pessoa sabia deste relacionamento – um segundo monge – com o qual ela tomou parte naquilo que descreve
como uma relação de poliandria ao estilo tibetano. “Isto aconteceu alguns anos antes de eu perceber que a forma como
tinham tirado proveito de mim constituíra uma forma de abuso”.
A prática
do sexo tantrico é mais antiga que o próprio budismo. O conceito surge com os antigos hindus que acreditavam que a retenção
do sémen durante a relação sexual aumentava o prazer e a longevidade do homem.Os budistas tibetanos desenvolveram a crença
de que o caminho para a iluminação poderia ser acelerado pela decisão de “integrar as paixões na prática espiritual,
em vez de as evitar”. Esta estratégia é considerada tão eficaz como arriscada e diz-se que pode levar à iluminação numa
única vida.
Os monges
de estatuto inferior estão limitados a visualizar uma relação sexual durante a meditação. Mas, como o livro de Campbell afirma,
os “mestres” atingem um ponto em que decidem envolver-se na prática do sexo sem serem maculados por tais actos.
As instruções nos denominados “textos secretos” enumeram os métodos que permitem ao homem controlar o fluxo do
seu sémen através de práticas meditativas. A ideia é “conduzir o sémen de forma ascendente na direcção da cabeça”.
Quanto mais sémen se encontrar na cabeça de um homem, mais forte ele será intelectual e espiritualmente.
Para
além disso, é dito que o homem ganha uma força adicional absorvendo os fluidos femininos e retendo os seus. Esta “reversão
do sexo comum”, diz a autora “expressa o estatuto relativo do homem e da mulher, pois ilustra a forma como o poder
flui da mulher para o homem”.
O desiquilibrio
na relação é sublinhado pela insistência por parte dos gurus de que as consortes devem permanecer em segredo, permitindo que
mantenham o controlo sobre elas. “Desde que o livro foi publicado, recebi cartas de mulheres de todo o mundo que viveram
experiências semelhantes e piores”.
Então
porque permaneceu ela na relação durante três anos? “Por prestigio pessoal. As mulheres passam a acreditar que também
elas são especiais e sagradas. Estão a entrar num espaço sagrado. Isto produz karma positivo e é um teste à sua fé”.
A combinação de religião, sexo, poder e sigilo pode ter um efeito poderoso. Cria um paradoxo de chantagem psicológica, bem
expresso nas palavras de outro guru, beru khientse: “Se o teu mestre age de forma aparentemente não iluminada e sentes
que seria hipocrisia pensar nele como um buda, deves lembrar-te que as tuas próprias opiniões não são fiáveis e que os defeitos
que aparentemente vês, podem ser apenas o reflexo do teu próprio estado mental deludido. É apenas devido à grande compaixão
do teu guru que ele demonstra estes defeitos aparentes...ele está a espelhar os teus defeitos.”
A pressão
psicológica é frequentemente aumentada quando se faz as mulheres jurar sigilo. Para além disso, foi dito a June Campbell que
“problemas, loucura, ou mesmo a morte” seriam as consequências da quebra do sigilo. “Foi-me dito que numa
vida anterior, o lama com quem estive envolvida teve uma amante que lhe causou problemas e, para se livrar dela, lhe lançou
um feitiço que a levou a ficar doente e morrer”.
Existem
praticantes budistas – como Martine Batchelor – que passou dez anos como monja zen num mosteiro coreano e que
agora ensina no instituto de scharpham - que insistem que as técnicas religiosas
que buda ensinou podem ser separadas da cultura sexista, opressiva e patriarcal de muitos países budistas. Mas June Campbell
não está convencida disso. “Temos de nos perguntar qual a relação entre as crenças e a forma como a sociedade se estrutura.
No mundo tibetano, o poder reside nas mãos de homens frequentemente traumatizados, pois foram retirados das suas mães aos
dois anos e levados para um mosteiro exclusivamente masculino. “A alguns são permitidas as visitas de mães ou irmãs,
mas sempre em segredo – de forma a que eles vêm a associar as mulheres
com algo que tem de ser escondido”.
(...)
“Quando comecei a desenredar as minhas experiências,
comecei a questionar tudo”, afirmou Campbell. Isto significa não apenas as acções de um guru em particular, mas o próprio
conceito de guru. Ela começou a pensar se o tantra não seria apenas uma fantasia e se existe de facto alguma diferença entre
o sexo tantrico e o sexo comum. Questionou inclusivamente o próprio conceito de iluminação e a prática da meditação. “Percebi
que, para ser eu própria, tinha de deixar isso tudo: completa e totalmente.”